5 de setembro de 2008

Em...

... criança desenhava simetricamente.
Formas geométricas perfeitas e equilibradamente distribuídas numa folha de papel.
Concêntricas e organizadas.

Na adolescência e na faculdade, comecei a apreciar (e a desenhar) o abstracto.
Formas disformes, cores antagónicas, sentidos despertos, conteúdo ausente.
Descentradas e desorganizadas.

Sem perceber muito bem porquê, reconheço falta de ordem no (meu) mundo.
Sem conseguir explicar como, aprecio a anarquia intrínseca de um punhado de cores e de uma mancheia de traços aleatórios.

Neles revejo cansaço e desânimo.
Neles encontro energia e paixão.

Neles não há beleza, nem fealdade.
Apenas gesto, força, vontade...

(boas férias para mim :))

4 de setembro de 2008

Tenho...

... de fugir dele.

Do que (me) provoca.
Do que me prejudica.

Para ele, sou apenas comodidade, artigo de necessidade.
Mas sigo-o porque sou, do mesmo fruto, as duas metades.

Por isso, tenho de fugir.
(talvez não dele mas de mim)

Não porque não queira acompanhá-lo.
Mas porque tenho medo de não querer mais deixá-lo.

3 de setembro de 2008

Dou atenção...

... aos elogios errados.
Gosto de ser apreciada por aquilo que não tem valor nenhum.
Acredito que só tenho um talento.
E é nesse campo que nunca quero deixar(-me) mal.
E percebo que me moldo a essa imagem.
Que permito (e imponho) que me vejam (só) assim.
Sou loura com medo de mostrar a raíz escura.
Actriz que nunca despe a pele da personagem.
E restrinjo-me ao que mostro e confino-me ao que dou.
E reduzo-me ao que valho e limito-me ao que sou.

2 de setembro de 2008

A criança...

... de 10 ou 12 anos, pequena e miúda, caminhava à minha frente quando parou, encostando-se à parede.
Só aí reparei nela.

Olhar de 'matadora' que dirigiu a um rapaz com o dobro da sua idade.
Top curto e decotado.
Calças de cintura tão descaída que mostravam o seu baixo ventre (e um pouco mais) e o início do seu traseiro infantil (mesmo estando de pé)...
... e a pose "Faz-me!" de uma prostituta de 30.

Chocou-me, admito.

Tenho 36 anos e ainda me debato com dilemas morais arraigados de infância.
Mas não os (pres)sinto nos jovens que observo.
O sexo é primazia... 'garantia de qualidade'.
E, cada vez mais descarado, é também cada vez mais precoce.

E isso, feliz ou infelizmente, não deixa de me chocar...

1 de setembro de 2008

Nada (me) chega!

Tudo (me) sabe a pouco.
Há sempre algo que (me) falta.

Qualquer coisa por fazer... por dizer.
Qualquer coisa por ouvir... por receber.

E nada chega.
Tudo é insuficiente.

Quero mais... preciso de tudo!
Empanturrar-me de mimos e atenções.
Fartar-me de carinho e emoções.

E, mesmo assim, vou achar pouco.
E o meu corpo permanecerá oco.

Porque sou buraco negro, sugando alimento.
Mas sou poço sem fundo, escoando sustento.

29 de agosto de 2008

Ele...

... tem uma insegurança quase infantil.
Uma necessidade de se afirmar que tenta, mal ou bem, disfarçar.

Ele tem de se mostrar.
Provar que o acham bom.

E fá-lo ingenuamente.
Apenas pedindo atenção.

Raramente o sinto homem.
Vejo-o sempre menino.

Com ele, não sou mulher.
Apenas apoio, arrimo.

28 de agosto de 2008

Surgiu...

... há coisa de 3 semanas, no café onde vou todas as manhãs (de Agosto).
E agradou-me a possibilidade de o ver regularmente... pelo menos durante um mês.


Olhou-me como gosto de ser olhada.
Sem disfarces, sem pudor.

Olhei-o apenas como fui capaz.
Sem defesas, com rubor.

Hoje surgiu de novo... acompanhado.

Senti que me olhou ainda.
Não o olhei.

27 de agosto de 2008

As boas conversas...

... são como requintadas refeições completas.

Começam com uma entrada deliciosa que nos deixa com água na boca, incitando-nos a continuar, imaginando o que virá a seguir.

Depois presenteiam-nos com vários pratos principais, substanciais e suculentos, (pre)enchendo-nos o corpo e saciando, em grande parte, vícios de apetites e gula.

Mas há sempre um cantinho que queremos reservar para a sobremesa... acreditando que será sublime, perfeita!
Há sempre a ilusão de esperar a cereja que enfeita o bolo.

E é sempre uma decepção comer uma sobremesa que compromete toda a refeição...

26 de agosto de 2008

Para quê...

... falar se não podemos ouvir?
Para quê prometer se não podemos cumprir?

Detecto cansaço, alguma impaciência.
Ausculto frieza, reserva, indiferença.

Trai o que se diz para atrair.
Afasta-se quando se quer seduzir.

Para quê fingir que a vida é boa assim?
Para quê tentar se já sabemos o fim?

25 de agosto de 2008

Olha que dois...

Ele:
"Acho que cada vez menos consigo estar comigo mesmo"

Eu:
"E eu parece que cada vez mais não consigo estar com outras pessoas"