24 de julho de 2008

Que vontade...

... imediata de embarcar na sua onda.
"Posso ficar contigo?" e eu agito-me em antecipação.


Salvo-me pelo medo do seu ímpeto.
Protejo-me por receio do seu desejo.

Mas é o seu ímpeto que me prende.
E o seu desejo que me estimula.

Fujo por receio de punição.
Escondo-me por medo da perdição.


Mas é a sua vontade que me chama.
E o seu apelo que me dá...

23 de julho de 2008

Escrever...

... é fácil quando me limito a descrever o que sinto.


Difícil é policiar-me para não revelar o que não posso.


Impossível é escrever o que não vivo.

22 de julho de 2008

Os nervos...

... saem-me pela pele.

Emergem em calores e suores.
Rebentam em rosácea e impigens.

Expulso-os em eczemas atópicos.
Seco-os com cremes e cuidados.

Os meus nervos não se revelam na voz.
Ouvem-se na pele como que bradando.

Não se detectam na atitude.
Percebem-se na pele como que estrebuchando.

Não se lêem no olhar.
Vêem-se na pele como que transbordando.

A minha pele manifesta-se, denunciando-me.
E quando a minha pele me expõe, percebo que, por baixo dela, me quebro.

21 de julho de 2008

Falo...

... como se o que digo não importa.
Ouço-me e apresso velozmente o silêncio.

Falo na ânsia de ser ouvida.
E assim mesmo nem eu consigo escutar-me.

Falo por mim mas não para outros.
E eles fingem mas não me ouvem...

... apressando a minha pressa de silêncio.

4 de julho de 2008

2 de julho de 2008

Porque...

... não pode ser mais simples?
Porque tem de haver perturbação?

Porque não pode ser um crescendo de emoção?
Porque tem de haver desilusão?

Porque não pode ser momento eternizado?
Porque tem de haver sempre um adeus decepcionado?


Porque não posso acreditar?
Porque tenho sempre de sonhar?

1 de julho de 2008

Ela...

... está doente.
Com uma daquelas doenças que evitamos pronunciar o nome... talvez com receio de que nos venha bater à porta um dia.

Ela está doente e eu ainda não a vi desde que sei.
Falámos apenas e quis acreditar que tudo estava prestes a passar.

Ela é uma amiga querida e eu não consigo dar-lhe a mão.
Ela está doente e eu não sei lidar com esta situação.

30 de junho de 2008

Weekend leftovers

Estive com eles este fim de semana.
Os amigos bem sucedidos e socialmente bem integrados.
Os amigos bem casados e com filhos bem criados.
Os amigos economicamente desafogados e planos de vida cumpridos.

Estive com eles este fim de semana.
A amiga que não encaixa porque desordena o número par.
A amiga que não combina porque é diferente e se isolou.
A amiga que destoa porque se furou e tatuou.

Estivemos juntos este fim de semana.
Os amigos que, em comum, têm unicamente a sua história.
Os amigos que, de tão díspares, mutuamente se perturbam.
Os amigos que, de tão opostos, mutuamente se fascinam.

Estivemos juntos este fim de semana.
Os amigos que, against all odds, conseguem manter-se próximos.
Os amigos que, apesar dos pesares, conseguem continuar amigos.

27 de junho de 2008

Gosto de escrever...

... para pessoas inteligentes.

Gosto de misturar português e inglês e saber que me vão compreender.
Gosto de fazer trocadilhos e ter a certeza de que me vão saber ler.

Gosto de deixar frases a meio e crer que as vão conseguir completar.
Gosto de usar meias palavras e ser lida nas entrelinhas.

Gosto de não ter de explicar o que escrevi.
Gosto de não ter de me esforçar para que percebam que brinco.

Gosto de escrever.
Gosto que me saibam ler.

Gosto que me leiam.

26 de junho de 2008

Os espartilhos...

... em que me apertei constrangem-me.
Impedem-me de respirar.

O colete de força que vesti oprime-me.
Rouba-me vida e liberdade.

Quero correr e detenho-me.
As grilhetas magoam-me.
A coleira estrangula-me.

Vou ficando.
Tenho de ficar.

Não posso ir.
Impedi-me de partir.