17 de janeiro de 2008

O som...


... arrastado e pungente acordou-me, a meio da noite.

Demorei um pouco a lembrar-me que, agora, já não tenho vizinhos paredes meias.

Porque, se não soubesse que era um gato no cio, diria que era o som do prazer de uma mulher.

Pensando bem, não são coisas assim tão diferentes... pois não?

16 de janeiro de 2008

Escrevo...

... de raiva e lamento.
Grito ciúme e paixão.

Choro de dor e inveja.
Morro de auto-comiseração.

Não me penses bela e quieta.
Não me queiras beata e feliz.

Não sou perfeita e cuidada.
Antes farrapo sujo e enredado.

Não penses que podes salvar-me.
Não queiras saber de mim.

Porque sou só sombra sem corpo.
E só sei ser corpo... sem luz.

15 de janeiro de 2008

Cheguei mesmo...

... a dizer-to.
Depois de ti, nada me serve... parece praga que me rogaste.

Encolho o rabo e a barriga num 34... porque ficam a nadar num 36.
Estendo-me, pequena, numa casa grande demais, onde o som dos meus passos recorda a tua voz: "Tu ainda não moras aqui".
Oprimo conversas desmesuradas em gavetas minúsculas e organizadas, mini compartimentos secretos na minha alma.
Minimizo fantasias, redimensiono emoções, pondero riscos.

Tudo agora são números... grandes ou pequenos demais.
Mas sempre incorrectos, inexactos... incompletos.

Depois de ti, sou Hulk em roupa rasgada, Alice no País das Maravilhas...
... disforme, desajeitada, enorme.

Depois de ti, nada me serve.
E eu... não sirvo em nada.

14 de janeiro de 2008

Não sei

A música toca, suave.
Tudo o resto é silêncio, auto-imposto.

É verdade, não sei.

Quero perder esta paz, valiosa?
Não sei.

Quero (des)iludir-me uma vez mais?
Não sei.

Quero cuidar-me e cuidar-te?
Não sei.

E dependerá da minha vontade?
Não sei...

11 de janeiro de 2008

Faltam-me...

... resoluções de novo ano.

Esqueci-me de comer as passas, formular os desejos.
Não estreei nada azul, não pisei a nota de 50 euros.

Agora navego ao sabor do vento.
Sem terra no horizonte.
Sem rota traçada.
Sem destino pensado e desejado.

Posso parar já.
Ficar aqui.

Não há nada que queira, nada que me desperte.
Não há vento que me ufane.
Nem brisa que me cerre os olhos.

Estou à deriva.
Sou à deriva.

Avisem-me quando chegar...

10 de janeiro de 2008

Chateia-me...

... acreditar nesta filosofia da Vida ser um eco, pelo que só recebemos o que emitimos.

Mas acredito.
É a velha história de semear ventos para colher tempestades.
E chateia-me!

Impede-me de culpar os outros.
E aumenta a minha própria culpa.

Porque o meu respeito não gera som.
Mas o meu comodismo (egoísmo?) grita.

Porque o meu sonho é contido.
Mas o meu anseio alarido.

Porque o meu afecto é cuidado.
Mas o meu desejo estouvado.

Sou sempre derrubada pela força do eco que gero.
Mas suporto a culpa e engulo os queixumes.

Porque o meu reflexo, projectei-o.
A ausência de carinho, granjeei-a.
A conversa que ouço, procurei-a.
E as lambadas que recebo, mereço-as.

E isso chateia-me!

9 de janeiro de 2008

"Enquanto...

... vergo, não parto"
Há muito que não me sinto flexível, maleável.
Parti-me?

"Enquanto choro, não seco"
Há tanto que ninguém me faz chorar.
Sequei?

"Enquanto vivo, não corro
À procura do que é certo"

Falta-me o fôlego em maratonas e sprints.
Morri?

8 de janeiro de 2008

"Peer pressure"

Concordo que agimos, em muitos aspectos, por pressões externas.
E acredito que o mesmo acontece com muito do que sentimos.

Queremos o que nos é incutido como desejável.
E negamos o que nos é vendido como errado ou vergonhoso.

Por algum motivo (provavelmente por ser tão cabeça dura) o caminho mais trilhado sempre me causou alguma aversão.

Quando as meninas da minha idade sonhavam com vestidos brancos e igrejas românticas, eu dizia que queria ir viver sozinha aos 18.
Quando fumar era sinal de ser 'in', de estar na moda, lembro-me da Mafalda, de cigarro em punho, tentando enfiá-lo na minha boca... e de nunca o ter conseguido.

Quando a moda não me favorece, não a sigo.
E quando algo que eu gosto sai de moda, mantenho-lhe a minha fidelidade e dedicação... seja roupa, calçado, móveis, carros, pessoas e/ou atitudes.

Talvez, por tudo isto, me tenha perdido algures.

Com os amigos bem lançados na auto-estrada da vida... casamento, filhos, carreira, dinheiro... algo me diz que eu devia ter conseguido o mesmo.
Em vez de me ter metido em estradas secundárias que chegarão (ou não) ao mesmo destino, talvez tivesse feito bem em pagar algumas portagens.

E, mesmo sabendo que é a antipática da peer pressure que mo segreda e atazana, a influência que não lhe permito nas minhas acções, continua a fazer-se presente em relação ao que sinto...

7 de janeiro de 2008

Não tenho...

... nada para te dizer.
Nada nos liga, nada ficou.

"Então? Estás bom? Por aqui?"

A surpresa do encontro inesperado não serve de desculpa para o incómodo da situação.
E o atraso que me apressava não justifica a falta de assunto, de intimidade... de prazer em te rever.

Deixas-me sempre triste... tens esse condão.
Mesmo sem termos nada em comum.
(precisamente por não termos nada em comum!)

Mas porque achas que não temos nada em comum?
E porque fico triste, se concordo?

3 de janeiro de 2008

Chamam-lhe...

... maluca.

Porque troca números de telemóvel com o empregado do restaurante onde se sentou para almoçar.
Porque já fez o mesmo com o agente da Brigada de Trânsito que a multou numa operação Stop.

Porque é incapaz de prestar verdadeira atenção a quem a acompanha, uma vez que mantém em constante actividade o 'radar de efeito gerado à sua volta' que nunca desliga.
Porque troca família e amigos por outros 'focos de atenção' que lhe interessa aprofundar.

Porque só a bajulação a sacia e sossega.
Porque é carente e ansiosa e nada a satisfaz.

Porque é infeliz e mal amada mas ainda não desistiu de tentar...